quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem

Transcreverei a seguir o magnífico livro de São Luís Maria Grignion de Montfort; para mim é uma satisfação imensa poder compartilhar com vocês esse tesouro da nossa Igreja.

Fonte: Livro Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem 
Autor: São Luís Maria Grignion de Montfort; Missionário Apostólico, Fundador da Congregação dos Missionários da Companhia de Maria e da Congregação das Filhas da Sabedoria. 
44° edição- Editora Vozes- Petrópolis, 2014.

Introdução

1. Foi por intermédio da Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por meio dela que Ele deve reinar no mundo.
2. Toda a sua vida Maria permaneceu oculta; por isso o Espírito Santo e a Igreja a chamam Alma Mater - Mãe escondida e secreta¹. Tão profunda era a sua humildade, que, para ela, o atrativo mais poderoso, mais constante era esconder-se de si mesma e de toda criatura, para ser conhecida somente de Deus. 
(1. Antífona à Santíssima Virgem para o tempo do Natal; hino "Ave Maris Stella".)

3. Para atender aos pedidos que ela lhe fez de escondê-la, empobrecê-la e humilhá-la, Deus providenciou para que oculta ela permanecesse em seu nascimento, em sua vida, em seus mistérios, em sua ressurreição e assunção, passando despercebida aos olhos de quase toda criatura humana. Seus próprios parentes não a conheciam; e os anjos perguntavam muitas vezes uns aos outros: Quae est ista?... - Quem é esta? (Ct 3,6; 8,5) pois que o Altíssimo lha escondia; ou, se algo lhes desvendava a respeito, muito mais, infinitamente, lhes ocultava.
4. Deus Pai consentiu que jamais em sua vida ela fizesse algum milagre, pelo menos um milagre visível e retumbante, conquanto lhe tivesse outorgado o poder de fazê-los. Deus Filho consentiu que ela não falasse, se bem que lhe houvesse comunicado a sabedoria divina. Deus Espírito Santo consentiu que os apóstolos e evangelistas a ela mal se referissem, e apenas no que fosse necessário para manifestar Jesus Cristo. E, no entanto, ela era a Esposa do Espírito Santo.
5. Maria é obra-prima por excelência do Altíssimo, cujo conhecimento² e domínio Ele reservou para si. Maria é a Mãe admirável do Filho, a quem aprouve humilhá-la e ocultá-la durante a vida para lhe favorecer a humildade, tratando-a de mulher - mulier (Jo 2,4; 19,26), como a uma estrangeira, conquanto em seu Coração a estimasse e amasse mais que todos os anjos e homens. Maria é a fonte selada (Ct 4,12) e a esposa fiel do Espírito Santo, onde só ele pode penetrar. Maria é o santuário, o repouso da Santíssima Trindade, em que Deus está mais magnífica e divinamente que em qualquer outro lugar do universo, sem excetuar seu trono sobre os querubins e serafins; e criatura alguma, pura que seja, pode aí penetrar sem um grande privilégio. 
(2. "[...] ut soli Deo cognoscenda reservetur"  SÃO BERNADINO DE SENA. Sermão 51, art.1, cap.1). 

6. Digo com os santos: Maria Santíssima é o paraíso terrestre³ do novo Adão, no qual este se encarnou por obra do Espírito Santo, para ai operar maravilhas incompreensíveis. É o grande, o divino mundo de Deus 4, onde há belezas e tesouros inefáveis. É a magnificência de Deus 5, em que ele escondeu, como em seu seio, seu Filho único, e nele tudo que há de mais excelente e mais precioso. Oh! que grandes coisas e escondidas Deus todo-poderoso realizou nesta criatura admirável, di-lo ela mesma, como obrigada, apesar de sua humildade profunda: Fecit mihi magna qui potens est (Lc 1,49). O mundo desconhece essas coisas porque é inapto e indigno. 
(3. "Rationalis secundi Adam paradius" SÃO LEÃO GRANDE. Sermão de Annuntiatione).
(4. "Mundus specialissimus altissimi Dei" SÃO BERNARDO)
(5. "Magnificentia Dei" RICARDO DE SÃO LOURENÇO. De laud, Virg., lib. IV).

7. Os santos disseram coisas admiráveis desta cidade santa de Deus; e nunca foram tão eloquentes nem mais felizes, - eles o confessam - que ao tomá-la como tema de suas palavras e de seus escritos. E, depois, proclamam que é impossível perceber a altura dos seus méritos, que ela elevou até ao trono da Divindade; que a largura de sua caridade, mais extensa que a terra, não se pode medir; que está além de toda compreensão a grandeza do poder que ela exerce sobre o próprio Deus; e, enfim, que a profundeza de sua humildade e de todas as suas virtudes e graças são um abismo impossível de sondar. Ó altura incompreensível! Ó largura inefável! Ó grandeza incomensurável! Ó abismo insondável!

8. Todos os dias, dum extremo da terra ao outro, no mais alto dos céus, no mais profundo dos abismos, tudo prega, tudo exalta a incomparável Maria. Os nove coros de anjos, os homens de todas as idades, condições e religiões, os bons e os maus, os próprios demônios são obrigados, de bom ou mau grado, pela força da verdade, a proclamá-la bem-aventurada. Vibra nos céus, como diz São Boaventura, o clamor incessante dos anjos: Sancta, sancta, sancta Maria, Dei Genitrix et Virgo; e milhões e milhões de vezes, todos os dias, eles lhe dirigem a saudação angélica: Ave, Maria..., prosternando-se diante dela e pedindo-lhe a graça de honrá-los com suas ordens. E a todos se avantaja o príncipe da corte celeste, São Miguel, que é o mais zeloso em render-lhe e procurar toda a sorte de homenagens, sempre atento, para ter a honra de, à sua palavra, prestar um serviço a algum dos seus servidores. 


9. Toda a terra está cheia de sua glória, particularmente entre os cristãos, que a tomam como padroeira e protetora em muitos países, províncias, dioceses e cidades, inúmeras catedrais são consagradas sob a invocação do seu nome. Igreja alguma se encontra sem um altar em sua honra; não há região ou país que não possua alguma de suas imagens milagrosas, junto das quais todos os males são curados e se obtêm todos os bens. Quantas confrarias e congregações erigidas em sua honra! Quantos institutos e ordens religiosas abrigados sob seu nome e proteção! Quantos irmãos e irmãs de todas as confrarias, e quantos religiosos e religiosas a entoar os seus louvores, a anunciar as suas maravilhas! Não há criancinha que, balbuciando a Ave- Maria, não a louve; mesmo os pecadores, os mais empedernidos, conservam sempre uma centelha de confiança em Maria. Dos próprios demônios no inferno, não há um que não a respeite, embora temendo. 

10. Depois disto é preciso dizer, em verdade, com os santos:

De Maria nunquam satis... Ainda não se louvou, exaltou, honrou, amou, serviu suficientemente a Maria, pois muito mais louvor, respeito, amor e serviço ela merece.

11. É preciso dizer, ainda, com o Espírito Santo: Omnis gloria eius filiae Regis ad intus - Toda a glória Filha do Rei está no interior (Sl 44, 14), como se toda a glória exterior, que lhe dão, a porfia, o céu e a terra, nada fosse em comparação daquela que recebe no interior, da parte do Criador, e que desconhecem as fracas criaturas, incapazes de penetrar o segredo dos segredos do Rei. 


12. Devemos, portanto, exclamar com o apóstolo: Nec oculus vidit, nec auris audivit, nec in  cor hominis ascendit (1 Cor2,9) - os olhos não viram, o ouvido não ouviu, nem o coração do homem compreendeu as belezas e excelência de Maria, o milagre dos milagres da graça 6, da natureza e da glória. Se quiserdes compreender a Mãe- diz um santo -  compreendei o Filho. Ela é uma digna Mãe de Deus: Hie taceat omnis lingua -Toda língua aqui emudeça. 


13. Meu coração ditou tudo o que acabo de escrever com especial alegria, para demostrar que Maria Santíssima tem sido, até aqui, desconhecida 7, e que é esta uma das razões por que Jesus Cristo não é conhecido como deve ser. Quando, portanto, e é certo, o conhecimento e o reino de Jesus Cristo tomarem o mundo, será como uma consequência necessária do conhecimento e do reino da Santíssima Virgem Maria. Ela o deu ao mundo pela primeira vez, e também, da segunda, o fará resplandecer.


(6. "Miraculum muraculorum" SÃO JOÃO DAMASCENO. Oratio I de Nativitate B.V.).

(7. No sentido de: conhecida insuficientemente, como se depreende de todo este parágrafo e da expressão: "Jesus Cristo não é conhecido como deve ser")

sexta-feira, 4 de julho de 2014

A Transubstanciação


Ano 1263 - Bólsena (Itália)


Se a insigne Catedral de Orvieto é célebre na Itália e fora dela, graças a sua beleza artística e especialmente pela riqueza e magnificência de sua fachada, não é menos notável e querida aos devotos filhos da Igreja Católica, porque guarda o tesouro inestimável de uns Corporais¹ manchados com o sangue vivo do Redentor. 
O acontecimento prodigioso se acha confirmado pela autoridade de setenta e oito historiadores italianos e estrangeiros, entre os quais figuram Baronius, Muratori, Panvinius e Ughelli. 
O fato se passou em 1263, quando o Papa Urbano IV se refugiou com a Corte Pontifícia em Orvieto, a fim de proteger-se das sacrílegas vexações que os apaniguados de Mafredi, intruso rei da Sicília, cometiam contra o Patrimônio de São Pedro. 
Nessa ocasião aconteceu de passar por Bólsena, que então pertencia à diocese de Orvieto, um sacerdote alemão que se dirigia em peregrinação a Roma. 
A finalidade de sua viagem era venerar o sepulcro dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, e impetrar, por sua mediação, a graça de se ver livre das impertinentes dúvidas que desde algum tempo o afligiam com relação à presença real de Jesus Cristo na Eucaristia. Antes de prosseguir viagem, o peregrino entrou na igreja dedicada à Virgem e Mártir Santa Cristina, para rezar a Santa Missa. 
Estava o sacerdote celebrando o Santo Sacrifício quando, no ato de sustentar a Hóstia já consagrada para parti-La sobre o cálice, esta se converteu toda em carne e sangue, com exceção de um pequeno fragmento que tinha entre os dedos. As gotas de sangue que se desprendiam da sagrada Hóstia marcaram os Corporais.
Assombrado o sacerdote, e desejando ocultar aquele sangue, dobrou os Corporais, mas em vão, porque até nas dobras deles se reproduziram vinte e cinco manchas, nas quais aparece impressa a imagem do Salvador, no triste aspecto com que foi mostrado ao povo judeu por Pilatos.
Espantado e quase fora de si pelo prodígio, sem força nem ânimo para continuar a Santa Missa, o celebrante tomou a sagrada Hóstia convertida em carne junto com os Corporais e o purificador, desceu os degraus do altar e foi levando tudo à sacristia. Neste caminho aconteceu que da Hóstia sacrossanta e dos lenços sagrados caíram algumas gotas de Sangue, ficando marcadas as manchas em quatro pedras distintas do pavimento, que era de mármore. 
Uma dessas pedras se venera no próprio altar em que ocorreu o prodígio, e a outra no altar-mór da nova igreja, denominada "do Milagre". 
Sumamente comovido o sacerdote por todo o ocorrido, tomou a determinação de ir a Orvieto, onde lançou-se aos pés do Sumo Pontífice e lhe pediu a absolvição de suas faltas, relatando a história do prodigioso sucesso. 
Informado do fato, ordenou o Papa ao bispo de Orvieto que fosse a Bólsena e dali trouxesse as sacrossantas relíquias. Chegado o bispo, na presença do clero e de uma multidão imensa de povo que havia acudido, tomou na sacristia da igreja de Santa Cristina a Hóstia adorável e os sagrados lenços tintos de sangue, e acompanhado por sacerdotes e pelo povo se dirigiu a Orvieto. 
Junto à ponte que atravessa a torrente chamada Riochiaro, lhe foi ao encontro o Sumo Pontífice, acompanhado do Sacro Colégio dos Cardeais, de eclesiásticos, associações religiosas, autoridades civis e militares e de uma inumerável multidão de fiéis.
Profundamente inclinado e de joelhos em terra, o supremo Hierarca da Igreja adorou o Santíssimo Sacramento, e tomando das mãos do bispo a sagrada Hóstia convertida em carne, assim como os Corporais manchados com o preciosíssimo Sangue de Jesus Cristo, conduziu em procissão até a cidade, entre os devotos cânticos do clero e do povo, depositando-os no sacrário da Catedral.
Essa foi, depois da de Daroca, na Espanha, a segunda procissão de Corpus Christi
Na verdade, foi providencial o admirável acontecimento, pois determinou ao Sumo Pontífice Urbano IV instituir em toda a Igreja Católica a festividade de Corpus Christi, que já havia algum tempo lhe era pedida pela Beata Juliana, cisterciense de Liège. 
Essa solenidade anual foi decretada pela Bula Transiturus, publicada em Orvieto no ano de 1264, e fixada para a quinta-feira depois da oitava de Pentecostes. 
O prodigioso acontecimento deu mais tarde motivo a que os orvietanos edificassem sua magnífica Catedral, na qual se encontra reunido tudo quanto se pode desejar de harmônico, rico, belo e grande na arquitetura, pintura, escultura e obra de mosaico. 
Os sagrados Corporais manchados com o prodigioso Sangue são venerados na mesma Catedral, dentro de um precioso tabernáculo. 

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1. Corporais: Tecido que se coloca no altar embaixo do Cálice para reter qualquer partícula da Sagrado Hóstia ou gotícula do Sagrado Sangue que por ventura venha a cair sobre o altar. 


Livro Milagres Eucarísticos - Pe. Manuel Traval y Roset S.J. 

sábado, 15 de março de 2014

Nossa Senhora da Misericórdia



Nantes (França)

No século VIII já havia uma capela dedicada a Nossa Senhora, mas o Santuário foi construído no ano de 1026; depois da revolução, tornou-se igreja paroquial.
O título - Nossa Senhora da Misericórdia originou-se de um voto feito pelos habitantes do lugar, que pediam misericórdia à Virgem Santíssima, por viverem aterrorizados por causa de um dragão. 
A peregrinação a este Santuário é no domingo do Divino Espírito Santo, sendo precedida de uma novena. 

(Versão do livro " Mille Pèlerinages de Notre-Dame", de I. Couturier de Chefdubois).

Fonte: livro Maria e seus gloriosos títulos

Nossa Senhora do Santo Cordão


Valenciennes (França)

No ano de 1008 a peste assolava Valenciennes, tendo vitimado, em poucos dias, oito mil pessoas. 
Um piedoso eremita, condoendo-se dos moradores da cidade, retirou-se para uma floresta vizinha, para pedir a proteção da Mãe de Deus, que, bondosa como sempre, atendeu as suas súplicas, prometendo-lhe que manifestaria o seu poder na noite de 7 para 8 de setembro, festa da sua Natividade. 
E assim aconteceu: nessa noite um grande clarão se espalhou pelos ares!
Os habitantes da cidade, saindo amedrontados para as ruas, viram a Mãe de Deus resplandecente de glória e cercada de Anjos, a um dos quais entregou um novelo de cordão, com a ordem de rodear a cidade. O Anjo, obedecendo, circundou-a, desenrolando o novelo, e, finda a sua tarefa, a visão desapareceu, cessando a peste nesse momento. 
A alegria foi indescritível, e eis que regressa o eremita, anunciando que, para agradecerem tão grande benefício, fariam uma procissão ao redor da cidade, e, à medida que a procissão avançava, iam recolhendo o maravilhoso cordão, que foi guardado num relicário de madeira dourada. 
As autoridades da cidade se comprometeram nesse dia, por um voto, a fazerem todos os anos a mesma procissão, no dia da festa da Natividade de Nossa Senhora. 
O milagroso cordão, que livrou várias vezes Valenciennes da peste, foi depositado em uma capela que Carlos Magno tinha mandado construir em honra de Nossa Senhora. 
A igreja atual de Nossa Senhora do Santo Cordão foi construída em substituição da primitiva, que datava do século XIII, e tinha sido demolida depois da Revolução. 
A peregrinação atual ainda circula a cidade. 

(Versão do livro "Mille Pèlerinages de Notre- Dame".)

Fonte: livro Maria e seus gloriosos títulos